terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Um escritor com horas (in)certas | Perfil de Samuel Pimenta, por Mara Fontoura

Um escritor com horas (in)certas
Parte 2


Santarém, um lugar de influência

Os aplausos que se ouvem, agora, na Livraria Ferin devolvem o sorriso habitual e tranquilizante a Samuel e fazem-no recuar 13 anos no tempo, ao dia em que leu pela primeira vez um conto à família. "Lembro-me de terminar o conto, as minhas avós e a minha mãe estavam em casa, eu subi para cima do sofá e comecei-lhes a ler. Elas ficaram estupefactas por um miúdo de dez anos estar a escrever um conto, gostaram e aplaudiram”, relembrou.



Ao primeiro conto chamou A Casa Assombrada, um conto de duas páginas. Foi a primeira vez que escreveu consciente de que queria ser escritor e com o intuito de publicar. A história nunca saiu das quatro paredes de casa, e Samuel até já lhe perdeu o rasto, mas A Casa Assombrada marcou o início de um caminho na literatura.
Seguiram-se mais contos, todos num registo fantasmagórico. A vila de Alcanhões, na qual Samuel cresceu e na qual adorava brincar, à noite ganhava vida pelas personagens construídas no imaginário do escritor. “Atrás da minha casa tinha um riacho e isto fez com que eu fosse muito ligado à natureza. Acredito que as pessoas que são ligadas à natureza vêem a realidade de uma outra forma. Eu sempre olhei a realidade de uma forma mágica. Sempre me questionei como nascem as árvores, o que passa por baixo do riacho. Como fui um miúdo muito fantasioso comecei a escrever neste registo, com fantasmas e bruxas”.

Com um olhar contemplador, invulgar numa criança, e com ideias críticas sobre o mundo que o rodeava, desde cedo Samuel mostrou ser peculiar: aos 10 anos começou a escrever, aos 13 apaixonou-se pela poesia, aos 14 começou a criar textos para teatro. A certa altura, a escrita passou a ser um refúgio e a brincadeira favorita do, então, promissor escritor.
“Tive uma adolescência pouco comum, a escrita foi o meu refúgio. Sempre gostei de viajar, ouvir música. Gostava de brincar, mas a partir de uma certa altura brincava sozinho com as minhas personagens”

No quarto, o pequeno escrevia, escrevia, escrevia e escrevia, ora contos, ora prosa, ora poesia, e especialmente à noite, “porque havia menos probabilidades de ser incomodado” e se há coisa que Samuel detesta é ter que se cruzar com pessoas enquanto escreve. Hoje em dia já não é assim, as obrigações profissionais mudaram-lhe os hábitos.
“Trabalho em comunicação, numa fundação, a Fundação S. João de Deus e acordo todos os dias às 7:20 da manhã, não posso fazer grandes noitadas senão de manhã não acordo.”

Samuel escreve quando tem tempo e quando não lhe apetece nem sequer pega na caneta. “ Não me obrigo a nada, não gosto de regras, talvez às vezes crie regras para depois as quebrar”, remata com risos.

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