sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Um escritor com horas (in)certas | Perfil de Samuel Pimenta, por Mara Fontoura

Um escritor com horas (in)certas
Parte 1

Lá estava ele, uma figura redonda com ponteiros que giram sempre na mesma direção. Poderia estar numa parede, numa estante qualquer, ou até num pulso, mas não. Estava estampado na capa do terceiro livro de Samuel Pimenta - O relógio – que agora se encontra em cima da toalha bege com riscas brancas e horizontais que decora a mesa da Livraria Ferin.



14 de Dezembro de 2013, 17 horas em Lisboa, as galerias da Livraria Ferin, situada no Chiado, começavam-se a encher aos poucos de pessoas curiosas e ansiosas. À espera tinham Samuel Pimenta que, estranhamente, permanecia de olhos cabisbaixos e com as mãos irrequietas que teimavam em mexer nas franjas do cachecol ao xadrez verde e vermelho. Era um dia importante, era o dia em que O relógio deixaria de pertencer a Samuel para passar a ser folheado pelo público.

Em 2012, Samuel Pimenta candidatou-se ao Prémio Jovens Criadores com o poema O relógio, escrito em 2009, o qual acabou por vencer com o reconhecimento do Governo de Portugal e do Clube Português de Artes e Ideias.

“O primeiro verso soou-me na cabeça «odeio o meu relógio», escrevi-o e percebi: é isto. É daqueles poemas que não se consegue parar de escrever”, explicou Samuel.



De acordo com o escritor, o poema é uma metáfora da sociedade actual que vive “aprisionada”. “Peguei na figura do Relógio para metaforizar com as pessoas e com a conjuntura em questão presas e não se conseguem libertar”.


Samuel recusa-se a pertencer e a aceitar esta sociedade, assim como se recusa a usar relógio. “Nunca usei porque me sinto aprisionado. Era como se fosse uma algema que estava no meu pulso”. Porém, quem odeia o relógio não é Samuel, mas sim, Elise ou Lise, como é tratada intimamente. Um outro eu de Samuel que assina o poema, diferente do jovem de 23 anos, alto, que, hoje, se encontra elegantemente sentado e que olha para o infinito através dos óculos ao estilo de Harry Potter e Fernando pessoa, ou não fossem eles, duas fontes de inspiração para as múltiplas obras, ora fantasmagóricas, ora poéticas, que constrói.

O jovem poeta acredita na pluralidade de eus existente em cada ser, que surgem em diferentes momentos. Desde que iniciou o caminho na área da literatura várias vezes sentiu a necessidade de assumir as diferentes vozes que lhe surgem no interior. "A Lise surgiu pontualmente noutros poemas, mas surgiu bem vincada em O relógio e até a tónica com que o poema é escrito é diferente do Samuel. O que é certo, é que a minha escrita mudou desde que ela apareceu, amadureceu", sublinhou.

Sérgio Batista, amigo de Samuel desde a faculdade e com quem, hoje, tem uma amizade profunda, foi o primeiro a ler o poema O relógio. “Gosto muito, e tenho a certeza que será agraciado com ainda mais prémios”, adiantou. Um leitor atento dos trabalhos do amigo, Sérgio tornou-se um admirador dos poemas de Samuel. “Talvez o melhor da sua escrita resida na sua simplicidade e clareza, que conduz o leitor a significados e sentidos complexos”.

Já se passaram cerca de 2 anos desde que O relógio trouxe Samuel para a luzes da ribalta na literatura. Porém, só agora o escritor considerou ser a altura certa para a publicação do livro. “Só agora é que se proporcionou. Eu acredito que cada coisa tem o tempo certo para acontecer. Houve uma altura que eu não queria publicar, andava a organizar tertúlias, andava com uma série de coisas. Queria percorrer um caminho até ser a hora e a hora chegou.”

Defensor de que cada momento tem uma temporalidade definida, Samuel Pimenta tem como influência a parábola do Bambu.
“O Bambu demora quatro anos a crescer, nos 3 primeiros ganha raiz e no último ano cresce imenso. Se tu a quiseres arrancar não consegues, isto para a nossa vida é muito importante porque primeiro temos que trabalhar, construir raízes para sabermos o que temos e não desmoronarmos”, explicou com a delicadeza, com a mesma com que retira um mosquito que de súbito lhe caiu no copo de vinho. Num gesto minucioso, sendo o jovem contras as práticas injustas com os animais, Samuel devolve-o à vida.

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