segunda-feira, 11 de Novembro de 2013

Entrevista a Mafalda Pinto-Coelho - autora do posfácio de "Cancro com Humor"



Dra. Mafalda Pinto-Coelho
Presidente da Direção da Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro da Mama




Desde o início, o projeto de publicação do livro Cancro com Humor foi pensado com um objetivo solidário. Tanto a editora Livros de Ontem como a autora do livro, Marine Antunes, reconheceram de imediato que um livro como o Cancro com Humor apenas faria sentido enquanto servisse como veículo de ajuda para alguém: seja através de toda a sabedoria expressa no livro como através de uma campanha solidária associada à sua compra.

O livro Cancro com Humor foi feito a pensar nos leitores, um testemunho pessoal, diferente e divertido para ajudar quem tem de lidar de perto com o cancro. Tem, nesse sentido, uma lógica inerente de contato direto e permanente com o público, crescendo à medida de cada contributo dos leitores.

 É, no fundo, uma forma de retribuir à sociedade, diretamente a quem mais precisa, todo o apoio e carinho que os leitores têm dado tanto à editora como ao projeto e livro Cancro com Humor. É neste âmbito que a editora Livros de Ontem irá doar 1€ por cada exemplar vendido do livro Cancro com Humor à Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro da Mama, no que se acredita ser um sincero agradecimento e reconhecimento público por todo o bom trabalho que têm vindo a desempenhar na luta contra esta doença.

Em entrevista à Livros de Ontem, a Dra. Mafalda Pinto-Coelho, Presidente da Direção da Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro da Mama, explicou em que estado está a luta contra o cancro em Portugal.


João Batista - Dra. Mafalda Pinto Coelho,
gostaria de iniciar esta entrevista traçando um quadro geral sobre o estado da luta contra o cancro em Portugal. Quais os desafios, quais as dificuldades e quais as grandes conquistas que já foram feitas?

Mafalda Pinto Coelho - O Carcinoma da mama é a doença oncológica mais frequente no sexo feminino, com uma incidência estimada de perto de 5000 casos/ano na população portuguesa.
A diminuição do número da mortalidade por carcinoma da mama na população portuguesa já demonstra a eficácia dos esforços daqueles que iniciaram os programas de rastreio mamográfico no nosso país.
A medicina faz o seu papel tentando tratar e curar uma doença cuja grande complexidade reside nos inúmeros factores genéticos, ambientais e sociais que a condicionam. Cabe a cada mulher um papel fundamental, a ajuda no diagnóstico precoce, a vigilância e o rastreio. A mulher portuguesa faz o seu papel?

JB – No seguimento da sua interrogação, pergunto-lhe: as mentalidades ainda são um entrave à luta contra o cancro? As pessoas só se preocupam com a doença e o seu impacto social quando esta lhes bate à porta?

MPC - Tudo se tem feitos nos últimos anos para que a mulher portuguesa se encontre mais sensibilizada para a importância da prevenção e do rastreio mamário e ginecológico a fim de possibilitar um diagnóstico precoce. No entanto, ainda há muitas mulheres que não tem por hábito ir ao ginecologista, uma ou duas vezes ao ano, para serem observadas e efectuarem os exames de rotina. É, assim, fundamental veicular junto das mulheres e seus médicos assistentes as vantagens da realização regular destes exames de rastreio de modo a conseguir uma cobertura populacional tão grande quanto possível, que acarrete a médio prazo uma mudança radical da realidade desta doença.

JB – Projetos e livros como o Cancro com Humor podem ser a solução ou, pelo menos, fazer parte dela no sentido de subverter este paradigma?

MPC - Sim, sem dúvida!
Este livro é fascinante pela frescura que imprime e pela sabedoria envolta num traje naïf, na medida em que nos ensina que mais vale rirmo-nos do nosso destino e aceitá-lo, do que revoltarmo-nos contra aquilo que jamais poderemos controlar.
Assim, é na partilha da sua crença de que a vida se leva a rir e na forma de encarar a experiência do que é “ter cancro” que este livro colabora, decisivamente, na abertura de janelas de luz nos muitos edifícios de escuridão que giram à nossa volta.

JB - O que acha da forma como o cancro tem sido tratado junto da opinião pública, especialmente na área da literatura?

MPC - Na minha opinião muito se tem escrito e falado sobre “cancro”. Esta situação permite não só a desmistificação desta doença, como também a sensibilização e educação da mulher para a importância da realização regular dos exames de rastreio de modo a conseguir-se uma cobertura populacional tão grande quanto possível.

JB - O testemunho triste e pesado de doentes oncológicos com
peso junto da opinião pública ajuda ou dificulta a sensibilização social e a desmistificação da doença?

MPC - Não podemos negar que esta doença traz consigo sentimentos de limitação, inadequação, revolta, medo e perda de autoestima. A própria doença nos ensina que a morte é parte integrante da vida, que todos morremos um dia, da mesma forma que nascemos. Que viver não passa duma misteriosa viagem, mais curta e dolorosa para alguns, duma experiência imperdível e marcante para todo e qualquer ser humano. Todos os testemunhos são válidos, uns mais positivos que outros consoante a experiencia de cada um, porque, acima de tudo, alertam para uma realidade que não podendo ser alterada pode, pelo menos, ser prevenida.

JB - Qual tem sido o papel da Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro da Mama na luta contra o cancro?

MPC - A APAMCM ao longo dos seus 15 anos de vida acredita estar a conseguir minorizar as fragilidades existentes no sistema de saúde. Oferece a toda a população uma panóplia de apoios terapêuticos prestados por uma equipa de profissionais de saúde muito credível, durante toda a semana, de forma rápida e gratuita ou a custo assistencial. Divide-se em três grandes áreas: médica, fisioterapia e psicologia.


o        Consultas:

o       Triagem (1ª vez)
o       Medicina Geral e Familiar
o       Cirurgia da Mama (2ª opinião)
o       Fisiatria
o       Ginecologia (rastreio mamário e ginecológico)
o       Dermatologia
o       Psiquiatria
o       Nutrição
o       Osteopatia

o        Serviço de Medicina Física e Reabilitação | Centro Especializado em Fisioterapia Oncológica (galardoado com o Premio Boas Práticas em Saúde);

o        Serviço Psicologia (terapia individual | terapia familiar | terapia de grupo | ludoterapia);


JB - A venda do livro Cancro com Humor irá reverter, em parte, para esta casa. Existe alguma necessidade urgente na qual este dinheiro será aplicado?

MPC - Parte deste dinheiro será aplicado na nova consulta de ginecologia que tem como objectivo primordial a oferta do rastreio mamário e ginecológico à mulher. Abre ao público, na sede da APAMCM, dia 25 de Novembro. Encontramo-nos a angariar dinheiro para os materiais consumíveis e descartáveis, um software de gestão clínica e, ainda, para a aquisição de um ecógrafo no decorrer do ano 2014.

JB - Este tipo de apoios são fundamentais para o funcionamento da Associação ou apenas contribuições pontuais para realizar projetos específicos?

MPC - Todos os projetos em que a APAMCM se envolve são fundamentais para a gestão de todos os serviços de saúde e do quotidiano laboral desta instituição de saúde. Cada serviço de saúde necessita estar adaptado às reais carências dos seus utentes, modernizado e devidamente equipado com materiais hospitalares necessários ao tipo de tratamento que presta.
A APAMCM não tem qualquer apoio financeiro por parte da sua tutela e portanto dinamizar processos de captação de fundos é vital para que consiga manter-se aberta ao público e autónoma financeiramente.

JB - A autora Marine Antunes tem estado envolvida com esta Associação. O que pode dizer sobre a autora deste livro?

MPC - A Marine Antunes realizou em Junho deste ano um encontro de Cancro com Humor na nossa sede dirigido aos nossos associados com patologia oncológica. Foi uma tarde bem passada onde a troca de vivências se efectuou em alegria. Apesar de jovem a autora denota grande sensibilidade, maturidade e é muito voluntariosa.



JB - O livro Cancro com Humor aborda um tema muito sensível de uma maneira nova e arrojada. Como tal, existe sempre a possibilidade de ser mal compreendido.
Acha que a abordagem do livro é pertinente para o tema tratado?

MPC - Como escrevi no meu posfácio, Marine Antunes não é uma escritora no sentido convencional do termo – alguém que se dedica à escrita – mas sim uma sábia alma num corpo de menina que, a dada altura, sentiu necessidade de partilhar com o mundo uma genial ferramenta que encontrou dentro de si – o Humor – que a ajudou a lidar com a dor, a frustração e o medo de morrer.
Claro que há pessoas que lidam com a doença de outras formas e o humor para elas pode não ser o caminho ideal para gerirem as suas emoções. É algo que devemos respeitar. Aquilo que pode ajudar uns nem sempre se aplica de forma universal. Mas na verdade a rir a vida torna-se sempre mais fácil, mesmo nos períodos de profunda tristeza.

JB - A Dra. Mafalda Pinto Coelho foi convidada para escrever o posfácio do livro. Como foi fazer parte deste livro e o que pode desvendar aos nossos leitores?

MPC - Foi uma viagem interessante entrar no mundo íntimo da autora, viajar pelas suas inúmeras emoções, sentir as transformações interiores dos seus sentires, vestir a sua pele e tentar compreender o que vivenciou com aquela experiencia. Quando nos colocamos no lugar do outro aprendemos sempre imenso acerca de nós próprios.

O livro poder ser adquirido através do site da editora: http://bit.ly/1dhCYtK



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